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Dib Lutfi |
Ele filmou vários filmes do Nelson, na época, antes de eu começar. Aí ele pegou o jeito do Nelson filmar, sabia o que ele queria, como é que ele gostava. Aí, [para filmar Fome de amor (1968)] ele me dava umas dicas de luz, da hora certa de filmar… Ao longo das filmagens mesmo ele dava umas dicas. O filme foi filmado em Angra e Paraty, mas a gente vinha ver o copião aqui [no Rio], na Líder. Tinha umas coisas que ele sabia ver, umas coisas de ajuste no copião, correção de diafragma, uns macetes. E ia me falando, e eu ajustando. Duma outra vez que ele viu o copião, ficou tão contente, me abraçou. “Pô, você pegou [o jeito] mesmo!” Ele ficou tão satisfeito. Ficou feliz mesmo. Não tinha essa coisa de guardar segredo, de esconder. Era tudo da mesma panela. E ele era um cara gente boa, sentava, gostava de tomar uma cachacinha, não tinha pressa de ir embora, explicava tudo. Ele, o Bartucci, o Mário Carneiro. Todo dia. Depois de seis e meia, já começava a projeção. Todo mundo acabava de filmar e ia pra lá, pra ver o copião do dia anterior, às vezes do próprio dia. E o Fome de amor foi o meu primeiro filme com o Nelson. E ele dava a maior força: “aproveita o pessoal, que ficou todo mundo curioso.” Esse mundo é meu [1963], do meu irmão, Sergio Ricardo, foi o meu primeiro filme. Esse eu fiz sozinho. Eu tinha laboratório em casa. Na época, eu trabalhava na TV Rio, fazendo câmera – era chamado de cameraman, né? Aí eu fiquei com vontade de fotografar, pra ver. Os outros câmeras também fotografavam. Aí fiz um laboratório em casa e aprendi também junto com os outros mais antigos, da televisão – isso antes de ir pro cinema. Aprendi como revelava o filme, os banhos – e é a mesma coisa, o filme de cinema e o filme de fotografia. Era sempre assim que a gente aprendia. Conversando com os antigos. No Fome de amor, quando tinha algum plano que o Hélio via e que podia ser assim de uma maneira ou de outra, ele dizia como era que ele achava. E eu perguntava sobre as coisas que podia fazer: posição [de câmera], horário [ideal para filmagem, em função do sol], até que horas podia ir [que não afetaria a iluminação e a continuidade fotográfica]. Ele estava sempre pronto pra explicar tudo que ele sabia. Não tinha escola. E até melhor assim, você aprendendo com outro. Eu tenho uma lembrança dele como um professor. Eu via os filmes dele e ficava observando como eram, e ele explicava tudo. Um cara carinhoso, sempre calmo. Pena que eu nunca trabalhei com ele. Diretor de fotografia é assim. Nem como assistente, porque eu comecei depois. Mas fora dos encontros da Líder, era difícil da gente se encontrar. Cada um vai pr’um canto e fotógrafo não trabalha no mesmo filme. Aí quando se encontrava era sempre aquela festa. Cada um contava seus causos, as histórias que aconteciam, os problemas, pra não acontecer com os outros… Aprendi muito com ele. E com o Arne Sucksdorff, lá da época do cinema novo, que o Itamaraty trouxe de fora. A gente sempre continua aprendendo, pra sempre. E, até hoje, quando aparece alguma coisa nova, um plano assim, uma câmera que tem aquelas coisas que ele falava, que tem correção [de exposição], a gente lembra sempre dele. Aí quando ele morreu foi uma tristeza muito grande, né? Mas depois eu encontro ele de novo lá.
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