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O preto e branco suave das cidades Contraste cromático nas comédias populares |
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Plano inaugural (que abre o filme) Plano final (que fecha) Composição com espelhos – marcas do fotógrafo Após, chega uma amiga e as atenções se voltam para ela, ficando Espírito “agora definitivamente sozinho no quadro”, e Mariarosaria analisa que “mais do que o discurso dialogado, é a câmera que expressa o conteúdo latente da sequência, ao revelar, através das relações espaciais entre as personagens, a incapacidade dos intelectuais de olhar para a realidade que está ali diante deles, tomados que estão por uma ideia abstrata de cultura popular e de sua representação”. (FABRIS, p.184-186) O grande momento e A grande feira também têm muitos espelhos. O grande momento. Espelhos na loja fotográfica, na alfaiataria, no quarto da irmã. Na alfaitaria tem um pequeno espelho que encima o empregado, mas não se vê ninguém refletido neste espelho. Na loja fotográfica, no lado esquerdo do quadro, Ângela coloca o sobrinho num banco, na parede tem um espelho; no lado direito do quadro, Zeca acerta com o fotógrafo a fotografia do casamento. Ela está de costas ajeitando o sobrinho; não há reflexo de ninguém no espelho. Na saída, Ângela rapidamente se olha no espelho, se ajeita e sai. No quarto da irmã de Zeca, tem um espelho na parede e o espelho da porta do guarda-roupa, que fica aberto um bom tempo, mas os personagens não se miram diretamente ou muito tempo neste espelho. A grande feira. Espelhos na toca dos mendigos e no quarto da socialite Ely. A cena na toca inicia com a imagem refletida em um espelho quebrado de um mendigo tirando disfarce, imagem esta que vai revelando-se aos poucos para o espectador em um movimento de travelling para trás. Chega Maria procurando por Chico Diabo, chegam outros falsos mendigos com a féria do dia. Maria recolhe o dinheiro. A próxima cena inicia com a imagem refletida de Ely no espelho de seu quarto e vai abrindo para revelar o ambiente. Ela está se maquiando para sair; estão com ela duas amigas, Sara e Conceição. Os procedimentos iniciais de composição destas duas cenas criam o seguinte contraponto: enquanto uns tiram seus disfarces outros os colocam. São planos de composição simbólica, psicológica. Vamos acompanhar um pouco esta personagem Ely. Ela surge assim, maquiando-se, a imagem refletida, a aparência. Ao longo de sua jornada, esta mulher passa por algum tipo de transformação: na manhã seguinte, depois da noitada no cabaré de Zazá, sai da cama, descabelada, sem maquiagem e se olha longamente no espelho. A diferença entre Momento e Feira em relação aos espelhos é que no segundo os personagens se encaram nos espelhos. A grande feira faz parte de um movimento de efervescência cultural que acontece em Salvador, Bahia, entre 1958 e 1962, com o lançamento do primeiro longa de ficção local Redenção (1958, Roberto Pires), a criação do Museu de Arte Moderna até a conquista da Palma de Ouro em Cannes para uma produção paulista, mas com tema e sabor soteropolitanos. O melodrama policial Redenção, ainda que com diversos problemas, “com uma história falsa sem densidade real, na opinião de Walter da Silveira” (CARVALHO, p.86), alcançou “sucesso absoluto” em Salvador: “Teria havido compreensão e aprovação do público” (p.87). Com A grande feira é diferente: é o encontro com um “cinema social, comprometido com a realidade do país” (p.84). A história é baseada em circunstâncias reais. Conforme Maria do Socorro Carvalho apurou havia uma discussão desde meados dos anos 1950 sobre o que fazer com a feira de Água de Meninos, localizada numa área que serviria para a ampliação do Cais do Porto. O filme abre com o poeta popular Cuíca de Santo Amaro dizendo: “— A grande feira de Água de Meninos vai se acabar”. Ele está na parte baixa do Elevador Lacerda cercado por pequena multidão. Desde este início, o filme é um convite ao espectador para penetrar no universo popular. Um homem (Ricardo) compra um livreto do poeta e vai até a rampa do Mercado Modelo, entra num saveiro para dirigir-se até a feira. Estes planos iniciais com Cuíca de Santo Amaro, que volta para fechar o filme, poderiam ser vistos como uma moldura para o miolo do filme. São planos que remetem para o universo da feira de atrações, como de um Caligari, que convidam o espectador a entrar nesta história. No trajeto de Ricardo, os créditos sobre o perfil da cidade. Na feira, Ricardo caminha entre barracas indo para o bar de Pedro. Toda esta primeira parte no exterior é magnífica, com uma câmera que vai nos revelando, conduzindo. De longe, em grande plano geral, a câmera acompanha em panorâmica a caminhada de Ricardo entre as barracas, temos a visão precisa do lugar, a atividade “real” dos feirantes-trabalhadores, não há interferência nesta realidade, a câmera tenta captar o todo. O trabalho de fotografia de Hélio Silva e a operação de câmera de Waldemar Lima neste momento inicial nos seduz. Nas cenas de interior, esta força tende a desaparecer, como no Bar de Pedro, quando Ricardo adentra e ficamos sabendo da trama. As próximas cenas também são todas em interiores: na toca dos mendigos; no quarto de Ely, com duas amigas, preparando-se para sair; no cabaré de Zazá com a chegada das três mulheres; e Chico Diabo roubando uma joalheria. Estruturas clássicas Planos emblemáticos, lindos Ely volta para seu marido, mas até quando? Este plano foi considerado por Walter da Silveira como o mais importante do filme, e provavelmente o seja, “em que o sentimento dos personagens, numa invenção brilhante, acima da gramática tradicional, se traduz pelo diagrama distante de seus vultos em atitudes lentas, no cais, e não pela proximidade subjetiva dos close-ups”. (PIRES, p.10). Estes planos – da caminhada de Ely e Rony no porto e o longo plano-sequência visto de cima – não estavam previstos no roteiro de filmagem. Foram concebidos provavelmente durante o processo, o que levou o diretor a publicar, ao final do roteiro (p.21-95), os acréscimos (p.99-104) “como exemplo do seu trabalho” (p.97). Até que ponto a equipe de fotografia – Hélio Silva, Waldemar Lima – contribuiu com estes planos?
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