Por um realismo urbano

Diante da luz do sertão

O preto e branco suave das cidades

Dramas em preto e branco

Um país em marrom

Contraste cromático nas comédias populares

Cores da violência

Algumas experiências isoladas na década de 1980

O olhar documental

 


O homem certo para o serviço
Remier

Banana mecânica (1973)

Deixa, amorzinho… deixa (1976)

As aventuras amorosas de um padeiro (1976)

Amante latino (1979)


 


A biografia autorizada do cinema
brasileiro é pior que uísque nacional. Dor de cabeça e amnésia estão entre os efeitos colaterais. Uma indústria da desinformação que a militância compulsória do mercado de trabalho alternativo das bolsas de pós-graduação e mostras de cinema – modalidades de cavação cinematográfica em alta – teria por obrigação exterminar.

Ponta de lança do cinema brasileiro, o fotógrafo Hélio Silva – ao lado de Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos e Roberto Pires – teve uma participação concreta na construção da imagem e do modelo de produção de cinema independente que serviu de ponto de partida para o cinema novo e todo o cinema brasileiro posterior. Foi um de seus principais protagonistas. Mesmo assim, sua importância ainda não foi completamente assimilada e sua trajetória espera um estudo minucioso.

Enquanto isso, filmes como Banana mecânica (Braz Chediak, 1973), As aventuras amorosas de um padeiro (Waldir Onofre, 1976), Deixa, amorzinho… deixa (Saul Lachtermacher, 1976) e Amante latino (Pedro Carlos Rovai, 1979) – e toneladas de similares – seguem malvistos e malditos. Um ou outro é exibido na TV a cabo, de madrugada. Restam as fitas vhs e os dvd piratas. Exibições públicas são raras e quase sempre em cópias horríveis. Chegará milagrosamente o dia em que poderemos comprá-los na banca, alugá-los numa locadora ou mediunicamente baixá-los em nossos computadores? Quando o desejo selvagem de conhecer e reavaliar as páginas arrancadas da nossa história audiovisual será saciado? Continua o mistério…

Os títulos citados estão reunidos aqui por sugestão da curadoria para servir de mote a um estudo do uso da cor nestas comédias populares fotografadas por Hélio Silva nos anos 1970. O filme colorido é uma exigência do mercado e do público na passagem para a década em questão. Mas tenho que admitir minha total ignorância para falar tecnicamente sobre fotografia. O que posso dizer é que a imagem das comédias coloridas fotografadas por Hélio Silva é quente. Ela normalmente acompanha a temperatura dos argumentos, diálogos e títulos das fitas do gênero que ele fotografou. Além das já mencionadas, temos ainda Os maridos traem… e as mulheres subtraem (Victor di Mello, 1970), Memórias de um gigolô (Alberto Pieralisi, 1970), A viúva virgem (Rovai, 1972), Os mansos (Rovai, Chediak e Aurélio Teixeira, 1973) e Eu dou o que ela gosta (Chediak, 1975). Comédias populares impressas em cores vivas. Na maioria das vezes, economizando negativo e movendo a câmera apenas o necessário para que a trama e os personagens desenvolvam suas histórias na tela. De repente você é pego de surpresa por um pequeno truque ou trucagem. A tônica desse tipo de produção é sempre tentar extrair o máximo do mínimo. Hélio Silva era o homem certo para o serviço.

Para refletir sobre o desempenho de Hélio Silva em todas as obras que devem constar nesta retrospectiva e catálogo, deveríamos recorrer não aos críticos, mas aos antigos colegas de trabalho de Hélio; testemunhas das peripécias do técnico para driblar as dificuldades crônicas do cinema, e das soluções criativas que o transformaram numa lenda entre a classe. Esperamos que esta lenda seja compilada e circule fora do seleto grupo de testemunhas oculares da história.

Voltando aos títulos em questão, são produções realizadas num ambiente cinematográfico próximo ao chamado Beco do Cinema ou Beco da Fome, ainda pouco explorado pelos especialistas. O último nome ficou mais famoso pelo impacto e pelo fundo de verdade. Antigo e tradicional reduto da classe cinematográfica carioca, localizado entre a Cinelândia e a Senador Dantas, serviu de ponto de encontro a atores, técnicos, produtores e cineastas em atividade na cidade nos anos 1970 – assim como a Rua do Triunfo, em São Paulo. Meca dos “sovacos intelectuais”, definição do montador e realizador Severino Dadá, aqueles sujeitos viviam com um roteiro de filme debaixo do braço.

Todos os quatro filmes, de um jeito ou de outro, buscam atualizar fórmulas e estratégias da antiga chanchada. Seriam então pornochanchadas? Talvez, exceto Amante latino. O termo ainda é usado sem critério, apesar do modismo acadêmico que agora vampiriza o cinema brasileiro popular. Hélio não só esteve presente na origem do cinema independente do final dos anos 1950, como fotografou obras seminais da pornochanchada. Por exemplo, o filme de episódios, preto e branco e absolutamente pioneiro, Adultério à brasileira (Rovai, 1969). Rovai e Hélio Silva trabalharam juntos, em seguida, no clássico A viúva virgem (1972), com Adriana Prieto e Carlos Imperial – recordista de bilheteria do gênero. Imperial aproveitou o sucesso do filme de Rovai para lançar, logo depois, também com Hélio Silva como fotógrafo, uma falsa paródia que ele próprio produziu e protagonizou: Banana mecânica.

O título é matador e até hoje provoca sonoras gargalhadas. Muito mais que o filme. Banana mecânica é um veículo para a presença wellesiana de Carlos Imperial, impagável no papel do psicanalista que resolve o problema das clientes na cama. Formalmente simples, econômico, ágil e sem pretensões, cinematograficamente guarda semelhanças com Deixa, amorzinho… deixa. Só que Banana mecânica ganha em desenvoltura, malícia, deboche e sacanagem.

O filme de Lachtermacher atrai mesmo pelo surrealismo da história e da realização. Talvez, na época de seu lançamento, já não atendesse as taras do público por mais nudez e erotismo. Nélson Rodrigues escreveu no jornal, em 1968, que daquele momento em diante o público só se interessaria por pornografia. Lachtermacher estreou no longa-metragem com a chanchada Com minha sogra em Paquetá (1963), estrelada por Dercy Gonçalves. Deixa, amorzinho… deixa é uma tentativa de atualizar Que o céu espere (Alexander Hall, 1941), abrasileirado pela primeira vez em Fantasma por acaso (Moacyr Fenelon, 1946), com Oscarito. O resultado é uma comédia ingênua, apesar do título de alta voltagem sexual e do tema recorrente da esposa insatisfeita que encontra um cafajeste de plantão.

Realizado um ano antes do filme de Lachtermacher, As aventuras amorosas de um padeiro é provavelmente o melhor – em todos os sentidos – dos quatro filmes em pauta. Dialoga com franqueza, na linguagem direta da comédia erótica, com a crônica de costumes realista e ácida das primeiras obras fotografadas por Hélio Silva. De certa forma, o filme recupera essa tradição com frescor e sem frescura, através do filtro da pornochanchada. Não é à toa que Nelson Pereira é o produtor e foi quem mais incentivou o seu diretor, o ator negro Waldir Onofre, a fazer o filme. Assessorado pela câmera-olho de Hélio Silva, Waldir relata os medos e delírios sexuais da classe média suburbana do Rio de Janeiro com suingue e senso de humor. É visível o cuidado, a eficiência e a segurança com que cada plano foi fotografado. Ninguém está de bobeira: “Ô babaca, o chefe vem aí!”. Ambientado em Campo Grande, As aventuras amorosas de um padeiro não fica cheio de dedos na hora de manipular os principais clichês do preconceito – social, sexual, racial, religioso e cinematográfico. A imagem do brasileiro serve à trama e também é matéria-prima para o filme. Todo brasileiro adulto deveria assisti-lo.

A aventura musical Amante latino, última colaboração entre Rovai e Silva, veículo para Sidney Magal no auge da fama, foge inteiramente da linha cafajeste dos filmes anteriores. Vai por uma outra, também cafajeste, mas não difere em nada enquanto modelo de produção. Lembra o espírito das comédias musicais dos anos 1960 estreladas por cantores da Jovem Guarda. Apesar da androginia de Magal, da sensualidade de Angelina Muniz e das ninfetas do elenco de apoio, trata-se de um filme para as pré-adolescentes e macacas de auditório que, na época, estavam hipnotizadas pelo rebolado do astro de laboratório.


Remier
, segundo grau completo, é pesquisador e rato de cinemateca. Fã de Stan Lee, Bruce Lee e Muhammad Ali. Organizou a mostra Cinema Brasileiro, a Vergonha de uma Nação!, e o cineclube Malditos Filmes Brasileiros!. Publicou Ivan Cardoso – O Mestre do Terrir (Aplauso, 2008).