Carlos Ebert

Dib Lutfi

Leonardo Bartucci

Lúcio Kodato

Luiz Paulino dos Santos

Nelson Pereira dos Santos

Pedro Carlos Rovai

Sergio Santeiro

Severino Dadá

Sylvio Back

Walter Carvalho

 

Sinto muito (a Hélio Silva)

Ouso comentar as homenagens a ele devidas. Ao que soube, como todos os nossos velhos, teve dificuldades econômicas prementes ao fim. E se olharmos em volta, todos nós trabalhadores do audiovisual brasileiro certamente teremos a quem assistir e apoiar. E isto é política pública. O Brasil é um país que mata os brasileiros para deixar reinar os reinóis.

E não me venham com chorumelas de sindicalismo atrelado, o negócio é uma intervenção direta do Estado para garantir a sobrevida do nosso patrimônio audiovisual brasileiro e seus criadores, os trabalhadores do audiovisual brasileiro, até alguns poucos produtores, se quiserem. Divirjo: é um absurdo querer atrelar o cinema brasileiro a cinemas estrangeiros.

Neorrealismo é o cacete. Esses meninos só sabem ler livro, não sabem ler filme nem a história do cinema brasileiro, que apesar de quase sempre interromper-se, sempre mantem um elo de ligação, como na Revisão crítica, de 1962, de Glauber: Nelson – Humberto Mauro – Mário Peixoto e Edgar Brasil, no que vira um diálogo com Hélio, com o José Rosa, com o Mário, com o Barreto, pra não falar dos outros, são tantos.

Isto tudo brilhantemente periodizado e ampliado em 70 anos de cinema brasileiro, de Adhemar Gonzaga e Paulo Emilio Salles Gomes, e fartamente ilustrado. Depois, sua estética política em Trajetória no subdesenvolvimento. E mais recente, para o pós-68, A revolução do cinema novo, di Glauber, fartamente tudo.

Precisavam ver o Hélio contando no filme do Octávio Bezerra Cinememória como desmontou a câmera do Humberto Mauro e, sob seu olhar de temor, depois a remontou, consertada, e saiu para filmar Rio, 40 graus. Tá lá na tela a imagem despojada que querem buscar nas ruínas de Roma avassalada pela violência dos bárbaros.

As condições materiais, portanto, locais de produção é que determinam a forma, se quiserem, o aspecto do produto. Aqui o que temos é a natureza que não se comporta como os padrões fotográficos dos negativos primeiro-mundistas importados. Há que domá-los, submetê-los a nossa absurda luminosidade e disto resulta o trabalho destes nossos tantos artesãos a descobrir a tradução a mais justa, no limite da impressão da luz na película. E aí, se quiser, até corrige na revelação; na revelação, na cópia é mole.

E o cinema dos anos cinquenta descende da primeira Atlântida e do veio paulista da Vera Cruz, outra estética, outra fotogenia. Mas, de repente, Tony Rabattoni fotografa o Barravento, diz a lenda que Glauber ameaçou jogar no mar sua caixa de filtros, e assim por diante. É tão mais gostoso quanto mais verdadeiro. Há quem pense que encontrou lá fora a filiação de nossa cultura. Bobos.

Houve aqui a construção de uma estética popular socialista, que não é necessariamente feita pelo povo mas é necessariamente feita para o povo; e que busca no cinema a consciência da transformação social presente em todos os campos da sociedade brasileira da época, claro, confrontados com a brutalidade da repressão a partir do golpe de 1º de abril de 1964, página vergonhosa de nossa história, que tantos apoiaram.

O cinema novo é contemporâneo e próximo do cinema italiano de antes da revolução bem como da nouvelle vague; como o Nelson é contemporâneo do cinema independente americano. Disse-me ele que impressionado com o Brakhage.

O negócio é o cinema autoral independente por todo o mundo, contemporâneo de si mesmo, que a cada fornada, em cada geração, se renova e precisa guardar o legado dos mestres que nos antecederam. Passa-se o bastão numa corrida eterna de resistência.

E ainda lhe devo agradecer pessoalmente a recomendação para filmar o Prestes. Simples e grande mestre.

Sergio Santeiro é cineasta.