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Sergio Santeiro |
Ouso comentar as homenagens a ele devidas. Ao que soube, como todos os nossos velhos, teve dificuldades econômicas prementes ao fim. E se olharmos em volta, todos nós trabalhadores do audiovisual brasileiro certamente teremos a quem assistir e apoiar. E isto é política pública. O Brasil é um país que mata os brasileiros para deixar reinar os reinóis. E não me venham com chorumelas de sindicalismo atrelado, o negócio é uma intervenção direta do Estado para garantir a sobrevida do nosso patrimônio audiovisual brasileiro e seus criadores, os trabalhadores do audiovisual brasileiro, até alguns poucos produtores, se quiserem. Divirjo: é um absurdo querer atrelar o cinema brasileiro a cinemas estrangeiros. Neorrealismo é o cacete. Esses meninos só sabem ler livro, não sabem ler filme nem a história do cinema brasileiro, que apesar de quase sempre interromper-se, sempre mantem um elo de ligação, como na Revisão crítica, de 1962, de Glauber: Nelson – Humberto Mauro – Mário Peixoto e Edgar Brasil, no que vira um diálogo com Hélio, com o José Rosa, com o Mário, com o Barreto, pra não falar dos outros, são tantos. Isto tudo brilhantemente periodizado e ampliado em 70 anos de cinema brasileiro, de Adhemar Gonzaga e Paulo Emilio Salles Gomes, e fartamente ilustrado. Depois, sua estética política em Trajetória no subdesenvolvimento. E mais recente, para o pós-68, A revolução do cinema novo, di Glauber, fartamente tudo. Precisavam ver o Hélio contando no filme do Octávio Bezerra Cinememória como desmontou a câmera do Humberto Mauro e, sob seu olhar de temor, depois a remontou, consertada, e saiu para filmar Rio, 40 graus. Tá lá na tela a imagem despojada que querem buscar nas ruínas de Roma avassalada pela violência dos bárbaros. As condições materiais, portanto, locais de produção é que determinam a forma, se quiserem, o aspecto do produto. Aqui o que temos é a natureza que não se comporta como os padrões fotográficos dos negativos primeiro-mundistas importados. Há que domá-los, submetê-los a nossa absurda luminosidade e disto resulta o trabalho destes nossos tantos artesãos a descobrir a tradução a mais justa, no limite da impressão da luz na película. E aí, se quiser, até corrige na revelação; na revelação, na cópia é mole. E o cinema dos anos cinquenta descende da primeira Atlântida e do veio paulista da Vera Cruz, outra estética, outra fotogenia. Mas, de repente, Tony Rabattoni fotografa o Barravento, diz a lenda que Glauber ameaçou jogar no mar sua caixa de filtros, e assim por diante. É tão mais gostoso quanto mais verdadeiro. Há quem pense que encontrou lá fora a filiação de nossa cultura. Bobos. Houve aqui a construção de uma estética popular socialista, que não é necessariamente feita pelo povo mas é necessariamente feita para o povo; e que busca no cinema a consciência da transformação social presente em todos os campos da sociedade brasileira da época, claro, confrontados com a brutalidade da repressão a partir do golpe de 1º de abril de 1964, página vergonhosa de nossa história, que tantos apoiaram. O cinema novo é contemporâneo e próximo do cinema italiano de antes da revolução bem como da nouvelle vague; como o Nelson é contemporâneo do cinema independente americano. Disse-me ele que impressionado com o Brakhage. O negócio é o cinema autoral independente por todo o mundo, contemporâneo de si mesmo, que a cada fornada, em cada geração, se renova e precisa guardar o legado dos mestres que nos antecederam. Passa-se o bastão numa corrida eterna de resistência. E ainda lhe devo agradecer pessoalmente a recomendação para filmar o Prestes. Simples e grande mestre. Sergio Santeiro é cineasta. |
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