Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis Associação Cultural Tela Brasilis Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis A Herança por Gustavo Bragança (texto originalmente publicado no folder da Sessão de Abril de 2007 do Cineclube Tela Brasilis)
O peso de uma mudez estranha. As bocas que se calam ou trinam como pássaros, gargalham ferozes, relincham, abrem espaço para o ruído e para a música. Nenhum silêncio. A eloqüência tensa dos ruídos e da trilha das cordas quase incessantes da viola diante do calar das vozes. Perante o texto consagrado de William Shakespeare, Ozualdo Candeias enfrenta o fazer cinema com a mudez da imagem. O “Hamlet” original é em si todo diálogo – o falar é o que move o acontecimento: tudo é dito, antes de ser visto ou enquanto se vê. Ou talvez o dito seja somente uma parte. O que faz a força do texto shakespeariano não é a palavra ou não apenas a palavra. Tal qual o silêncio inicial do Fantasma do rei morto – há uma eloqüência no mistério da mudez. Esta eloqüência muda é o material bruto do filme de Candeias. O silêncio das falas não ditas de “A Herança” abre raro espaço para um canto revelador. A voz do violeiro do circo expõe nas palavras cantadas o não dito e agride. Na troca de olhares, o tio/rei e a mãe do Hamlet de Candeias escutam no espetáculo a única voz que se faz, em cena, claramente discurso. A voz que mostra, que joga as cartas na mesa. A voz que escancara o mistério, que liberta o segredo emudecido, o segredo antes guardado pelo Fantasma. O canto, raro momento do falar, mas, justamente este, um falar encenado. Quando o Hamlet fala, carregando nas mãos a caveira de uma carcaça animal, profere no inglês do texto original: “To be or not to be...” No mais, o trinado, os relinchos e as gargalhadas mordazes. Importante ressaltar: não somente o som, mas também a imagem acolhe a mudez. A câmera de Candeias ora veloz ora lenta, o plano ora fechado ora aberto, zoom in, zoom out: um cuidado na aproximação da câmera com as personagens – que caminham muito, passam entre uns e outros. Olhar cuidadoso. Trocas de olhares. Personagens em primeiro plano sobre personagens em segundo plano. Olhares furtivos. Construção visual no indizível, na mudez. O desafio que Candeias se impõe é fazer cinema (e não teatro filmado) a partir da obra original. Tornar a obra shakespeareana sua contemporânea não apenas transpondo as personagens de um lugar para outro (mais familiar) ou alterando a forma de dizer as palavras (mais cotidianas), mas recriando a partir de um diálogo com a obra primeira. Candeias atravessa o texto do dramaturgo inglês em sons e imagens e encontra uma força de conflito impactante na troca de olhares, num riso, num andar, nas vozes que não ouvimos das bocas que se mexem, em cada ruído realista ou mágico da inventiva edição de som, na trilha sonora condutora da narrativa – encontra vias para além do diálogo dramático e cria algo seu. Traz a obra de Shakespeare para o interior do Brasil sem torná-la mera referência, analogia, comentário. Coloca questões propriamente nossas e contemporâneas sem ser mero jogo de transposição. Na mudez das personagens, falar de coronelismo, de racismo, da questão da terra (talvez esta exposta de forma mais descarada, deslocada, já no momento final do filme); tomar o texto para si, não como meio de simples reapresentação atualizada da obra; não seguir o ingênuo caminho que muito se ouve de construção de uma via facilitadora entre o público e a obra original: difícil, impenetrável. Candeias não facilita nada. “A Herança” não é um filme que se pretenda fácil. Não apara arestas, cria novas. Complemento (por Gustavo Bragança e Rafael de Luna)
Aos 84 anos, Ozualdo Candeias faleceu deixando uma das obras mais instigantes e desconhecidas do cinema brasileiro. O ex-caminhoneiro – entre outras atividades profissionais exercidas por ele antes de se iniciar no cinema – estreou em longas metragens com o importante “A Margem”, apontado como o marco inaugural do “cinema marginal”. Ao longo de sua carreira, realizou mais de uma dezena de filmes – curtas, médias e longas –, entre os quais o já citado “A Margem”, “A Opção”, “Zézero”, “A Herança” e “O Vigilante” (seu filme mais recente, de 1992, realizado no auge da crise da produção nacional, no governo Collor, e que, mesmo premiado em Brasília, não conseguiu lançamento comercial).
A importância de relembrar a cinematografia de Candeias nessa sessão do Cineclube Tela Brasilis supera o valor de homenagem ao cineasta no ano de sua morte. A circulação dos filmes de Candeias é rara. Suas obras são muito pouco conhecidas e vistas. “A Herança”, por exemplo, teve sua última exibição no Rio na mostra “Cinema marginal e suas fronteiras” há cinco anos – tempo suficiente para um novo cineasta se formar em sua faculdade sem nem mesmo ter tido a chance de ver este filme numa sala escura. Para um filme que é citado (cada vez mais) como uma obra singular e significativa da história do cinema brasileiro, cinco anos de ausência é tempo demais. Isso reflete um prestígio mumificado que é prejudicial. Como é uma admiração estática, novos interesses não são despertados pela obra – enquanto seu respeito e suas cópias se deterioram com a distância e o esquecimento. A circulação gera o debate, a revisão e, conseqüentemente, a crítica que reavalia ou desperta novas impressões. Aí está um papel de intervenção política do cineclube no debate sobre o cinema brasileiro. Qualquer obra de arte, inclusive um filme, que é esquecida imóvel num altar, cria pó e essa camada de sujeira nos impede de ver ou rever com clareza aquilo que levou essa mesma obra a ser colocada em destaque.
O curta “Candeias – da boca pra fora” (Celso Gonçalves, 2002), que completa a sessão, constrói um importante retrato do cineasta através dos depoimentos de críticos, colegas de trabalho e amigos, e, principalmente, do não-depoimento de Candeias, escondido atrás do capacete e dos seus largos óculos escuros. Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis topo