Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis

 
Associação Cultural Tela Brasilis
Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis
 
Quem matou Anabela?
por Rafael de Luna
(texto originalmente publicado no folder da Sessão de Janeiro de 2007 do Cineclube Tela Brasilis)  
 
Uma visão mais distanciada no tempo do cinema brasileiro dos anos 40 e 50 tende a se tornar frequentemente monolítica. Grosso modo, colocam-se de um lado as chanchadas das produtoras cariocas – lideradas pela Atlântida (mas não apenas) –, e do outro as grandes produções do cinema industrial paulista, capitaneado pelos estúdios da Vera Cruz (que não foi o único). Desse modo, é criada uma falsa oposição entre comédias rasteiras, mal-feitas e superficiais, e melodramas ou épicos mistificadores e pretensiosos. A realidade – ou melhor, os filmes – nos fazem ver que essas oposições, apesar de existentes, são mais tênues e complexas que se supõe e se referem sobretudo a posições políticas e concepções do que seria um cinema nacional ideal ou adequado ao contexto do país e do meio cinematográfico brasileiro. Um filme como "Quem matou Anabela?", de D. A. Hamza, produzido pelos estúdios da Cinematográfica Maristela em 1956, é uma obra que enriquece nossa visão sobre o cinema brasileiro dos anos 50.
 
Os primeiros planos de modernos edifícios já definem o cenário do filme – a moderna São Paulo – enquanto as cenas seguintes apresentam o mote da história: o assassinato da bela Anabela está em todos os jornais. O encarregado do caso, o Comissário Ramos (Procópio Ferreira), depois de reunir os principais suspeitos para identificar o corpo da vítima, os leva para a pensão onde a falecida morava para interrogar um por um.
 
A partir daí, o filme se encerra na sofisticada mansão – e no estúdio – para escapar novamente apenas em cada um dos diferentes e contraditórios depoimentos. A partir do clima inicial de suspense e mistério, o humor negro vai tomando conta do filme, afinal, TODOS os interrogados confessam terem sido os assassinos de Anabela! O filho da dona da pensão, Paulo (Carlos Zara), apaixonado pela Anabela, a descreve como uma moça pura e condenada por uma doença fatal de cujo desfecho ele a poupou ao envenená-la. Nydia Lycia constrói uma Anabela vamp, que ela assassinou por ciúmes do marido. Este, por sua vez, depois de abandonado pela amante carreirista e ambiciosa, também diz tê-la assassinado (somente para tentar inocentar a esposa). Por último, o rico amante de Anabela, Sr. Joaquim (Jayme Costa), descreve a morte de uma Anabela devoradora de homens como um acidente.
 
A estrutura do filme tenta construir uma personalidade multifacetada para a protagonista através de roupas, adereços, modos e gestual diferenciados, atendendo aos diferentes pontos de vista dos suspeitos. Se a influência de "Cidadão Kane" (1941) ou "Rashomon" (1950) poderia ser levantada, uma ligação mais próxima talvez fosse a do Nelson Rodrigues de "Vestido de Noiva" (1943), a partir de um modelo de construção da narrativa (e do personagem) fragmentada que o próprio dramaturgo aprofundaria na peça "Boca de Ouro" (1961).
 
Podemos estabelecer uma ponte entre "Quem matou Anabela?" e o teatro brasileiro não somente através do elenco – que mistura figurões de um “velho teatro” como Procópio Ferreira e Jayme Costa, com jovens expoentes como Ruth de Souza e Nydia Licia -, mas principalmente através do nome de Miroel Silveira. O crítico e dramaturgo já vinha trabalhando em cinema, sendo responsável justamente pelos roteiros das inclassificáveis e surpreendentemente ousadas comédias de Alberto Cavalcanti, "Simão o Caolho" (1952) e "Mulher de verdade" (1954). Responsável pela adaptação e pela “direção de diálogos” de "Quem matou Anabela?", Miroel Silveira confere o humor ácido e as doses de criatividade que saltam aos olhos no filme. De fato, em "Quem matou Anabela?" nota-se uma exagerada rigidez na gramática clássica, provavelmente pela mão pesada do húngaro Didier Hamza: um enquadramento pouco criativo, uma montagem sem fluidez e uma iluminação no desejado estilo holllywoodiano em que não faltam os closes de Ana Esmeralda com luz difusa e brilho nos olhos.
 
Ainda assim, são curiosos os momentos em que os depoimentos dos suspeitos (no plano da realidade/presente) dialogam com os flashbacks (no plano da fabulação/passado) revelando as mentiras ou as segundas intenções dos "assassinos". Uma "modernidade" ainda muito em voga, basta ver o filme americano "Mais Estranho que a Ficção" (dir. Marc Foster), atualmente em cartaz. Em relação ao elenco, Ana Esmeralda não se sai mal, enquanto o genial Procópio Ferreira, o comissário que almeja uma promoção com o caso, alcança o tom certo de malícia e bom humor construindo uma espécie de Hercule Poirot brasileiro na trama à la Agatha Christie.
 
Por fim, o mais interessante nesta produção de 1956 é perceber a reflexão sobre o cinema presente dentro do próprio filme. Em todas as versões do assassinato, Anabela é levada aos estúdios da TV Record para tentar se lançar na carreira artística. No depoimento do Sr. Joaquim, o amante rico que a trouxe da Europa, Anabela é também levada a um estúdio de cinema. Na porta se lê "Mariscruz" (mistura de Maristela e Vera Cruz) e "avanti", numa gozação com os ricos italianos por trás do cinema paulista. Tanto na incipiente televisão quanto no escritório do "picareta" produtor cinematográfico, o que interessa é o dinheiro e tendo ele por trás, se faz qualquer coisa, inclusive transformar Anabela em estrela do próximo filme. Sabendo-se que "Quem matou Anabela?" foi produzido por Mário Audrá Júnior, então apaixonado pela dançarina espanhola Ana Esmeralda, com o objetivo de lançar a namorada (e depois esposa) como estrela, a piada ganha conotações mais ácidas.
 
Desse modo, ao invés de associar imediatamente "Quem Matou Anabela?" com a produção industrial paulista dos anos 50, talvez seja mais interessante pensar as relações deste filme com "Carnaval Atlântida" (dir. José Carlos Burle, 1952). Se a comédia com Oscarito e Grande Otelo pode ser vista como um manifesto político a favor de um certo tipo de cinema - em oposição ao grandioso filme de época desejado na trama pelo produtor Cecílio B. de Milho (gozação tanto do cineasta americano Cecil B. De Mille quanto do indutrial italo-paulista Ciccilo Matarazzo) -, o filme realizado nos extertores da Maristela demonstra um enorme ceticismo com os rumos do cinema.
 
Mostrando muita semelhança com a cena de abertura da peça "Boca de Ouro", no qual o bicheiro insiste para o destista lhe arrancar os dentes e colocar uma dentadura toda de ouro, a frase que ecoa mais forte em "Quem Matou Anabela?" é a do produtor de televisão respondendo a todos as dúvidas que seu chefe pode ter em transformar Anabela em estrela: "O Senhor Joaquim paga! O senhor Joaquim paga!"
 
 
Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis

topo