Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis

 
Associação Cultural Tela Brasilis
Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis
 
O cinema engajado de Renato Tapajós
por Rafael de Luna
(texto originalmente publicado no folder da Sessão de Julho de 2007 do Cineclube Tela Brasilis)  
 
O cinema de Renato Tapajós é um cinema definitivamente engajado, entendendo engajamento no sentido de tomada de partido, escolha de posição, afirmação de um ponto de vista. Ao mesmo tempo, é um cinema do presente, feito no calor do momento, no turbilhão dos acontecimentos recentes, e, por isso, precioso registro histórico.
 
Deste modo, a sessão de julho do Cineclube Tela Brasilis em homenagem ao cineasta Renato Tapajós, composta por dois curtas-metragens dos anos 60 e dois médias-metragens da década de 1980, é não apenas uma amostra da obra desse importante documentarista brasileiro, como também um painel valiosíssimo dos caminhos (e principalmente dos descaminhos) da vida política e social do país nas últimas décadas.
 
O primeiro filme, "Vila da Barca" (1965), aborda um bairro formado por barracos sob palafitas na cidade de Belém do Pará, traçando as precárias condições de vida dos seus milhares de moradores. O curta-metragem é um exemplo cristalino do conflito com que se deparavam inúmeros artistas e intelectuais dos anos 60. Ansiando e participando do veloz processo de modernização do Brasil, eles eram confrontados com um outro país arcaico e praticamente feudal. Nota-se a revolta e o desejo por mudanças diante das imagens emolduradas por uma narração que ressalta que aquele local se encontra daquela maneira “desde o ciclo da borracha praticamente sem se modificar” e que “vai permanecer neste estado até que se encontre a solução”.
 
Entretanto, os artistas não recusam a poesia e a beleza (sobretudo da música) diante da miséria do povo brasileiro e fica evidente a influência do então já clássico "Aruanda" (dir. Linduarte Noronha, 1960) em "Vila da Barca", numa construção que destaca os aspectos de uma economia primitiva desenvolvida no local. Além disso, a presença de nomes como os de João Batista de Andrade e Maurice Capovilla assinando a montagem do filme junto com o diretor, aproxima Tapajós dos documentaristas paulistas que marcaram a história do gênero no país nos filmes produzidos por Thomaz Farkas nos anos 60 e 70.
 
Se em "Vila da Barca" já pode ser notado o clima de um país vivendo sob a ditadura, ainda que “envergonhada”, como em seqüências de crianças que “marcham” de brincadeira sob as palafitas ao som de uma trilha com toques de marcha militar, o pesado ambiente político do país aparece muito mais intensamente no filme seguinte da sessão, "Universidade em crise".
 
Esse curta-metragem, também de 1965, aborda a greve dos alunos do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP em protesto contra o aumento do preço dos alojamentos e do restaurante universitário, e a violente resposta da polícia. "Universidade em crise" é uma amostra exemplar do contexto que levaria 1968 a ser o ano que não terminou. Mesmo tendo seus canais de expressão e mobilização duramente reprimidos com a proibição dos grêmios, a extinção da UNE e a perseguição generalizadas aos estudantes (todos esses fatos revelados no filme), o movimento estudantil é que se tornaria o principal veículo – e válvula – de protestos nos primeiros anos da ditadura.
 
A semelhança destes filmes com nosso presente ainda é muito grande, tanto de "Vila da Barca" (uma vez que ainda vemos até hoje comunidades como a retratada no filme), mas também "Universidade em crise", bastando lembrar da recente invasão da reitoria da USP pelos alunos. Os temas ainda são praticamente os mesmos: autonomia universitária, privatização do ensino público, falta de condições para os alunos mais carentes.
 
No filme de Tapajós, o depoimento de um jovem aluno da USP é esclarecedor ao revelar sua completa decepção com ambiente que encontrou na universidade. Foi justamente essa enorme frustração de perspectivas criadas durante os governos JK, Jânio e Jango que levou muitos estudantes à militância clandestina, fazendo com que fossem eles os principais integrantes dos grupos de guerrilha armada dos anos de chumbo. Não é coincidência que Renato Tapajós tenha sido um deles. O cineasta entrou para a clandestinidade, foi preso em 1969 e libertado somente cinco anos depois, em 1974. A partir daí, se aproximou do movimento operário do ABC paulista e realizou as imagens mais importantes de um dos mais relevantes movimentos sociais já surgidos no país.
 
"A luta do povo" (1980) é um documentário que tenta resumir os acontecimentos do movimento operário entre 1978 e 1980. É interessante como o filme começa praticamente pelo que viria a ser o final do hoje clássico "Eles não usam black-tie" (dir. Leon Hirszman, 1981): o funeral de um operário assassinado pela polícia durante uma greve e os protestos de seus companheiros.
 
A partir daí, seguem-se imagens preciosas da violenta repressão da polícia aos grevistas e das grandes manifestações sindicais como as realizadas em São Bernardo do Campo nos feriados de 1º de maio de 1978 e 1979, tendo Lula como a principal liderança. O atual presidente surge em valiosos flagrantes, embora o filme não traga tantas imagens dele como no mais famoso "ABC da greve" (dir. Leon Hirszman, 1980). Curiosamente, podemos apontar semelhanças entre o filme de Tapajós e o recente documentário "Peões" (dir. Eduardo Coutinho, 2004) num foco em figuras menos destacadas do movimento operário, os “heróis anônimos”. A luta do povo se detém principalmente em um operário que não se destaca da multidão e é acompanhado pela câmera em sua peregrinação de porta em porta na vizinhança para recolher fundos para a greve, acompanhado de sua mulher, presença atuante no movimento contra a carestia.
 
Se os dois primeiros curtas eram de 1965, e "A Luta do povo" é de 1980, o intervalo de mais de uma década entre os filmes representa, sem dúvidas, um tempo perdido. A esposa do operário diz: “saí nas ruas em 1968 e 10 anos depois, em 1978, estou de novo”. Mas esses dois momentos se juntam como um fio que fora tragicamente interrompido. O cineasta, ainda imbuído dos ideais políticos dos anos 60, não esconde o evidente fascínio por operários que falam em “imperialismo”, “capitalismo internacional” ou “reforma agrária”. Escutar as massas cantando a emblemática “Caminhando”, de Geraldo Vandré, inclusive no final do filme, aumenta a sensação de que na abertura, “apesar de você” (a ditadura), a luta continuava.
 
Por fim, a prestação de contas com os anos de chumbo é o tema do último documentário da sessão. "Em nome da segurança nacional" (1984) registra o Tribunal Tiradentes, evento sem valor jurídico que foi realizado no Teatro Municipal de São Paulo para “julgar” a Lei de Segurança Nacional (LSN). No papel da acusação estava o hoje ex-ministro da Justiça do governo Lula, Márcio Thomaz Bastos (que faz um discurso brilhante) e no ingrato papel de defensor da LSN, Luiz Eduardo Greenhalgh (hoje deputado do PT) – ambos advogados que lutavam pelos perseguidos políticos. Presidindo a sessão o saudoso senador Teotônio Vilela.
 
"Em nome da segurança nacional" é o documentário mais sofisticado da sessão, utilizando diversos estilos distintos de narração, bem próximo do tom reflexivo do premiado curta "Ilha das Flores" (dir. Jorge Furtado, 1989). Intercalados com os créditos (verdes e amarelos), surgem imagens em preto e branco de filmes de arquivos e table-tops de fotos e jornais da época narrando os acontecimentos que levaram ao golpe de 1964 e ao endurecimento posterior da ditadura. Em seguida, em meio a cartelas contendo os artigos da LSN, encenações ficcionais ilustram acontecimentos comuns durante a ditadura ocorridos na rua, no bar ou em casa, que ilustram o sentimento de medo, inquietação e, sobretudo, de insegurança que tomava conta dos brasileiros em função da LSN.
 
A partir daí acompanhamos a realização do Tribunal Tiradentes propriamente dito, com a convocação das “testemunhas” - jornalistas, estudantes, componeses, operários (este, ninguém mais ninguém menos do que Lula, já como presidente do PT) – e seus depoimentos acompanhados de imagens.
 
A emoção que acompanha as falas daqueles que foram torturados ou tiveram companheiros desaparecidos é ampliada pelo uso de imagens de arquivo. Ao falar dos estudantes presos e mortos, a presidente da UNE se refere à estudante Aurora Maria Nascimento Furtado, a Lola da ALN, morta aos 26 anos de idade, no Rio de Janeiro, em novembro de 1972, sob tortura. Nesse momento, surgem as imagens de Aurora Maria do próprio filme de Tapajós, "Universidade em crise", do qual a mesma estudante foi uma das principais personagens. Assim como a obra-prima do documentário brasileiro, o filme "Cabra marcado para morrer" (dir. Eduardo Coutinho, 1984), Tapajós mistura seu passado pessoal, cinematográfico e político com o do país, numa prestação de contas pública entre imagens e personagens de ontem e de hoje.
 
"Em nome da segurança nacional" é um filme fantástico e exemplo pungente e emocionante da comoção que tomou conta do país no momento da Abertura, apropriado para encerrar a sessão do Tela Brasilis em homenagem ao cineasta Renato Tapajós.
 
 
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