Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis

 
Associação Cultural Tela Brasilis
Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis
 
Samba em Berlim e Abacaxi Azul
por Rafael de Luna
(texto originalmente publicado no folder da Sessão de Junho de 2007 do Cineclube Tela Brasilis)  
 
Um gênero se consagra a partir da identificação de certos elementos constantes (estéticos, temáticos, ideológicos) presentes em um amplo conjunto de filmes. No cinema brasileiro, o único gênero genuinamente nacional, reconhecido e estabelecido é a chanchada. A chanchada – que não é um gênero exclusivamente cinematográfico, tendo sido um termo também usado para qualificar peças de teatro – posteriormente ganhou um prefixo para designar outro gênero (ou subgênero): a pornochanchada.
 
A definição de um gênero é sempre uma tarefa árdua, devido, entre outros motivos, à dificuldade de categorizar um grande número de filmes diferentes entre si como pertencentes a um único grupo. As produções comumente considerados chanchadas, embora tratadas genericamente como um conjunto monolítico de filmes, apresentam inúmeras contradições e distinções entre si. De um “Alô, Alô, Carnaval” (dir. Adhemar Gonzaga, 1936) – o mais antigo filme musical brasileiro preservado integralmente – a uma “chanchada tardia” como “Sonhando com Milhões” (dir. Eurídes Ramos, 1963), para citar um filme com Dercy Gonçalves, vai um longo caminho.
 
Obviamente, existiram outras denominações para esse enorme conjunto de filmes, como “filmusical brasileiro” – entre outros termos cunhados, por exemplo, por Alex Viany –, assim como outros pesquisadores identificaram obras como cristalizadoras do que seria uma “chanchada clássica”. João Luiz Vieira indicou com perspicácia “Carnaval no fogo” (dir. Watson Macedo, 1949), enquanto Sérgio Augusto apostou em “O caçula do Barulho” (dir. Ricardo Fredda, 1949) provavelmente sem tê-lo visto, pois o Tela Brasilis já exibiu ambos e o mérito é sem dúvidas de Macedo.
 
Nesta sessão de julho de 2007, o Tela Brasilis preparou um programa especial que nos ajuda a refletir sobre a chanchada cinematográfica. Serão exibidos os filmes “Samba em Berlim” (dir. Adhemar Gonzaga, 1943) e um fragmento de “Abacaxi Azul” (dir. Wallace Downey, 1944). Ambos os filmes eram dados como perdidos e foram resgatados graças aos esforços do pesquisador Hernani Heffner e principalmente de Alice Gonzaga, herdeira da Cinédia e homenageada especial do Tela Brasilis.
 
“Abacaxi Azul” foi o último filme da trilogia das frutas realizada pela Sonofilms, empresa de Alberto Byington Jr. e dirigida pelo americano Wallace Downey. A importância da Sonofilms no cinema brasileiro como a produtora que em termos de adequação de um produto (o filme musical) para uma demanda de mercado (os fãs dos astros da rádio) e sua viabilização econômica na associação com um capital empresarial, abriu o caminho para Atlântida. Hernani Heffner levantou essa questão em seu trabalho sobre o fotógrafo Edgar Brasil, mas a Sonofilms ainda não recebeu a atenção que merece pelos estudiosos do cinema brasileiro. Isso talvez se deva ao fato de que Wallace Downey seja uma das figuras mais desprezíveis não apenas do cinema brasileiro, mas também da indústria fonográfica nacional, como fica claro para quem leu a recente biografia de Carmem Miranda escrita por Ruy Castro.
 
No fragmento a ser exibido pelo Tela Brasilis, ficam claros os objetivos e limitações da produção de “Abacaxi Azul”: explorar o humor de Alvarenga e Ranchinho em planos americanos com câmera fixa, dando atenção àquilo com o que o público estava acostumado a rir – a voz – sem esquecer do que o cinema podia oferecer que o rádio não – a imagem de seus corpos e rostos. Os cenários são terríveis, o filme não tem ritmo e se apóia exclusivamente nas gags dos humoristas e nos números musicais (exibiremos dois, um com o Anjos do Inferno e outro com Dirce Baptista). Entretanto, o objetivo da diversão é plenamente alcançado mais de dez anos após as primeiras investidas de Downey em cinema, com o encadeamento óbvio, mas lógico, de musicas com trechos de um fiapo de trama, que se resume a ida de dois caipiras para o Rio de Janeiro atrás de estrelas para a estação de rádio local.
 
O filme principal da sessão, “Samba em Berlim”, sempre foi creditado a Luis de Barros, o mais prolífico cineasta brasileiro, mas como pode ser comprovado nos créditos iniciais, a direção coube ao também produtor Adhemar Gonzaga.
 
A trama é praticamente a mesma de “Abacaxi azul” e semelhante a tantos outros filmes desde “Nhô Anastácio chegou de viagem” (1908): dois caipiras vão para a cidade grande e se deparam com astros e estrelas do show business tupiniquim. Obviamente, essa história se repete com algumas variações. No caso de “Samba em Berlim”, os amigos Quincas e João (Mesquitinha e Brandão Filho), sócios de uma oficina mecânica na cidadezinha de Piporoca, decidem ir para o Rio de Janeiro para decidir quem é o namorado da estrela Leda Lea (Laura Suarez), atriz da qual ambos tem fotografias autografadas com dedicatórias.
 
A partir daí se misturam diversos elementos e subtramas, que enumero a seguir:
 
1 – ROMANCE: Leda Lea é apaixonada pelo mocinho interpretado por Leo Albano, que não aceita sua carreira artística. Enquanto ela é assediada por um rico comerciante português (Manoel Rocha), um “mal-entendido” (o artifício clássico das chanchadas “macedianas”) faz com que eles briguem, até a conciliação no final. Esse entretrecho romântico é a desculpa para Gonzaga transitar pelos seus habituais cenários luxuosos, habitados por jovens ricos, brancos e bonitos, dando mais atenção aos enquadramentos e movimentos de câmara dentro do estúdio. “Samba em Berlim” foi realizado durante a longa produção de “Romance Proibido” (1939-1944) – refilmagem do seu primeiro filme, “Barro Humano” (1929) e projeto especial de Gonzaga onde ele punha em prática todos os seus ideais de um cinema de qualidade.
 
2 – HUMOR: As trapalhadas dos caipiras são desculpas para os humoristas mostrarem serviço. É impressionante como o cinema brasileiro possui um elenco de altíssimo nível de humoristas, que não se limita ao consagrado Oscarito. Brandão Filho – veterano de “Alô, Alô, Carnaval” – provoca graça com seus olhos arregalados que chegaram imutáveis até a “Escolinha do professor Raimundo”, no rádio e TV. Mesquitinha é realmente hilário com seu nervosinho Quincas, especialmente na cena de alistamento militar, mostrando que seu fantástico desempenho em “Simão, o Caolho” (dir. Alberto Cavalcanti, 1952) foi fruto apenas de lhe darem espaço para brilhar. Dercy Gonçalves completa o trio como Angélica, a empregada de Laura, deixando clara a diferença entre o jeito de falar, andar e gesticular que separa os personagens ligados ao universo popular (os comediantes) dos personagens de alta classe, marcados pela impostação da voz, interpretação teatralizada e pela ligação a uma trama melodramática. Enquanto os close-ups das mocinhas são usados para enfatizar sua fotogenia, os planos próximos dos comediantes ressaltam suas gozadas expressões faciais.
 
3 – MÚSICA: Os números musicais surgem com maior ou menor associação à trama principal, muitas vezes configurando-se como núcleos independentes, trazendo outras questões ao filme a partir da letra das canções. Num barracão de escola de samba, mostra-se o discurso de anúncio da troca da porta-estandarte (negra) por uma nova (branca) em acordo com mudanças da diretoria. Esse “prólogo” serve como introdução ao número musical, cuja letra repete todo evento, em que é cantada a canção “Conceição”, de Herivelto Martins, por Linda Baptista.
 
Outro número de destaque é o de Alvarenga e Ranchinho (astros de “Abacaxi Azul”), em que vestidos como Imperadores Romanos carnavalizam a Segunda Guerra Mundial então em curso, emendando um pout-pourri de clássicos de carnaval com letras satirizando o conflito. De “Allah-la-ô” (“Mas que calor ô ô ô... Na áfrica o tempo esquenta”, se referindo à derrota do general Rommel) para “Aurora” (“Se você não fosse louco..Oh oh oh, Adolfo”, gozando o próprio Füher) e “Você já foi à Bahia?” (que vira “Você já foi a Stalingrado?”), eles encerram com “O Ébrio”, antes do filme de Gilda de Abreu ser feito. Mas a gozação com a Segunda Guerra só podia ser levada até certo ponto, e o número com Virgínia Lane (dita amante de Getúlio) em frente a caricaturas feitas por Nássara de Hitler, Churchill, De Gaulle, mas, principalmente, de Stalin, foi censurado pelo Estado Novo.
 
4 – ESPETÁCULO: A fascinação com o universo dos bastidores dos espetáculos, seja das estações de rádio, dos teatros de revistas ou mesmo da televisão, atravessam as chanchadas. Em “Samba em Berlim”, como tantos outros, a sátira se dá com o próprio meio cinematográfico. A publicidade do star system – aplicada fielmente por Gonzaga através de sua revista Cinearte – é gozada pela atriz cansada de assinar fotos e pelos fãs que acham que os autógrafos foram escritos especialmente para eles. O “mal entendido” que faz o casal brigar se dá quando o noivo vê a atriz beijar um homem no ensaio de um filme e acha que é verdade (não foram poucas as desavenças amorosas que se deram nos bastidores da Cinédia). Em outro momento, o personagem de Grande Otelo “tira onda” por já ter participado de diversos filmes, inclusive um com Carmen Costa, “Grande Otelo” (!) e outros “300 pretos” e por isso o filme o escureceu (piadas racistas como essa surgem em diversas épocas e filmes, de Cataguazese e Cinédia à Atlântida). Por último, o próprio número musical de Alvarenga e Ranchinho como imperadores romanos faz parte da filmagem de um musical dentro do filme, o que nos leva a pensá-lo como possível antecedente da clássica cena do manifesto político chanchadesco “Carnaval Atlântida” (dir. José Carlos Burle, 1952). A saudação que eles fazem, aliás, é “Áve César Ladeira”, sinal de um mundo em que o líder supremo era o famoso locutor radiofônico.
 
5 – NACIONALISMO: O que dizer de índios cantando sambas e da marcha de tanques ao final do filme? Ou do mocinho terminando o filme fardando e marchando?
 
 
Enfim, no universo da chanchada há muito mais que supõe nossa vã historiografia cinematográfica.
 
 
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