Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis Associação Cultural Tela Brasilis Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis (textos originalmente publicados no folder da Sessão de Abril de 2008 do Cineclube Tela Brasilis)
O exorcismo de José Mojica Marins por Rodrigo Bouillet Exorcismo negro (1974) é o décimo-quarto longa-metragem, como diretor, da carreira de José Mojica Marins e apenas o quinto de seu personagem Zé do Caixão.
Em 1969, Mojica já era celebridade nacional, justamente por seus filmes que tinham o coveiro como protagonista, os quais lhe possibilitaram a admiração dos marginais paulistas e o convite para apresentar de programas de TV em que o macabro e o fantástico eram os temas mais recorrentes. Além disso, o criador explorava midiaticamente sua criatura como poucas vezes se viu em toda história do cinema brasileiro, com “estratégias de marketing” absolutamente sui generis.
Se o cineasta já havia provado o amargo gosto da censura em À meia-noite levarei sua alma (1964), Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966) e O estranho mundo de Zé do Caixão (1967) – todos filmes com o personagem Zé do Caixão –, nada se comparou ao que Ritual dos sádicos (ou Despertar da besta) (1969) viria a sofrer: uma interdição imediata que perdurou pelos 16 anos seguintes.
Como pude escrever para o folder da sessão de outubro de 2005, quando o Tela Brasilis exibiu Finis Hominis (1971), em Ritual dos sádicos “o diretor transporta Zé do Caixão para a cidade grande. Através de uma experiência com 4 viciados em drogas (de comportamento desviante) retirados de extratos sociais diversos, um psiquiatra quer provar os efeitos da figura de Zé do Caixão sobre o inconsciente coletivo. Como na realidade ele injeta água e não LSD, como combinado, fica provado que eles já estavam propensos a atitudes anti-sociais independente das drogas – novamente o determinismo.
Praticamente eviscerando uma sociedade perturbada, sádica, tarada, além de defender o uso de drogas, Mojica deixou à mostra um Brasil urbano, caótico e perverso que mexeu com os brios do Brasil propagandeado pelos militares.
As sucessivas intervenções em seus filmes rederam ao cineasta o afastamento de produtores cinematográficos, o que o obrigou a impetrar uma estratégia de reconciliação materializada na realização de filmes fora do contexto do horror, como”em Sexo e sangue na trilha do tesouro (1970); no faroeste Dgajão mata para vingar (1971); no duplo invertido de Zé do Caixão, Finis Hominis (1971) e Quando os deuses adormecem (1972); e logo depois aderindo a pornochanchada em A virgem e o machão (1973).
Nesta época, filmar A encarnação do demônio – último capítulo da trilogia iniciada por À meia-noite e Esta noite – estava absolutamente fora de questão para qualquer produtor. Para termos uma idéia, em 1973, o certificado de liberação da Censura de À meia-noite não foi renovado, impedindo o filme de circular.
Preterido, à beira da falência, Mojica jamais recuperou o vigor que sua carreira apresentou na segunda metade da década de 1960.
Apesar da perseguição da Censura, a Embrafilme enviou Esta noite para uma mostra de filmes brasileiros no Festival de Cannes de 1971. À meia-noite seria exibido no ano seguinte no MAM de Nova York. As exibições internacionais fizeram com que a crítica estrangeira prestasse cada vez mais atenção sobre os filmes de Mojica – grande parte desse interesse capitaneado por seu principal roteirista, Rubens F. Lucchetti, que trocava correspondências com críticos e publicava artigos sobre o cineasta.
O ponto culminante desta fase foi em 1974, com o prêmio recebido pelo conjunto da obra na 3ª. Convenção de Cinema Fantástico, em Paris.
Mojica teve seu retorno ao Brasil festejado pela imprensa local e (por isso mesmo) logo recebeu o convite de Aníbal Massaini Neto para ter seu próximo filme produzido pela tradicional CINEDISTRI. A idéia era realizar um similar nacional de O exorcista (The exorcist, de William Friedkin) que seria lançado em alguns meses.
A presença da produtora no filme é evidente, participam Antonio Meliande na fotografia e Carlos Coimbra na montagem, além de Jofre Soares no elenco.
Batizada de Exorcismo negro, a película parece ser uma forma de Mojica entender o processo (ou, por que não, até mesmo intervir no entendimento) pelo qual sua carreira passava naquele momento.
Assim como em Ritual dos sádicos, Mojica interpreta a si mesmo. O filme começa com o cineasta dando uma entrevista para a imprensa. Fala de sua passagem bem-sucedida pela Europa, que no momento sofre de um bloqueio criativo e vai passar uma temporada na casa de um amigo para pensar em seu próximo trabalho no cinema.
Fenômenos estranhos acontecem no local e vários membros da família são alvo de possessão demoníaca. Tudo leva a crer que a presença de Mojica é a razão dos distúrbios – sobretudo quando nega a existência de Zé do Caixão –, mas na realidade trata-se de uma bruxa reclamando uma dívida: a filha do casal que hospeda Mojica deve se casar com o filho de Satã.
Para ajudá-la, a mandingueira invoca Zé do Caixão. Ele mesmo, em carne, osso, espírito maligno, capa e cartola. Ocorre, então, a “real” peleja entre criador e criatura.
Ao contrário de Ritual dos sádicos, onde Zé do Caixão não sai da esfera da alucinação, em Exorcismo negro ele está entre nós – a grande questão do filme.
Mojica nos é apresentado como um intelectual, estudioso em parapsicologia, jogador de xadrez, homem de hábitos e modos refinados. Uma pessoa que tenta preservar o bem estar da família que o acolheu.
De forma geral, para quem acompanha a face mais bem-sucedida de sua carreira cinematográfica de até então ou está acostumado ao folclore que o ronda off-screen (já naquela época), esta decisão causa grande estranhamento.
Há um esforço narrativo e interpretativo para diferenciá-lo do personagem que o celebrizou que deixa a fruição um pouco incômoda. Quando Zé do Caixão finalmente entra no filme, este ganha novos ares, com cenas de violência e horror de toda a sorte que se constroem realmente livres e criativas, revelando, agora sim, um Mojica (diretor) em plena forma. Ao fim e ao cabo, Mojica vence Zé ao apelar para as forças de deus. Ou melhor, adia o combate final para outra ocasião...
Seja em prol de afirmar-se como criador cinematográfico conseqüente (reconhecido internacionalmente) seja para colocar ao grande público (e aos censores) que seus filmes (e ele mesmo) respeitam os valores mais tradicionais, Exorcismo negro vem para dissociar Mojica de Zé.
Em um mesmo movimento, afirma-se a real existência de Zé Caixão e cria-se uma ficção para um cineasta verdadeiro. Cruelmente, um movimento de liberdade sobretudo para Zé Caixão, pois o reconhece como pertencente ao imaginário coletivo, ao contrário do consagrado estereótipo de excêntrico que nunca abandonou Mojica, como Ritual dos sádicos já apontava.
Zé do Caixão nunca mais apareceria como protagonista dos filmes de Mojica – somente em aparições esporádicas em A estranha hospedaria dos prazeres (1975) e Delírios de um anormal (1977) –, um hiato a ser rompido com a estréia de A encarnação do demônio.
Rodrigo Bouillet
Entre demônios e maravilhas por Carlos Proença
"Mil nomes lhe foram dados, mas apenas um veio para ficar: Zé, do povo. Zé do Caixão."
Demônios e Maravilhas é uma cinebiografia de José Mojica Marins, dirigida e estrelada pelo próprio, cobrindo sua presença no cinema até 1987, ano de finalização do média, que fora iniciado em 1976.
Os demônios e maravilhas são os altos e baixos. Não apenas na carreira de Mojica como realizador de filmes, mas principalmente em sua eterna jornada em busca da auto-superação, algo que tem como ser o sentido da vida.
Através da narração em off na voz do próprio diretor, do uso de grandes temas musicais clássicos e da atmosfera suja, à margem, o objetivo de Mojica é provar que – apesar de tudo – a criação não acabou.
Sob este prisma, temos uma obra otimista, que, ao utilizar o ícone/personagem Zé do Caixão como exemplo dessa máxima da criatividade, mostra que todos conquistamos um lugar coerente com aquilo que fazemos, independente dos demônios que vão surgir no caminho.
É sobre a luta que o artista precisa travar contra a falta de motivação, contra o esquema e contra a máfia. E, para tal, Mojica não enxerga saída senão continuamente retirar-se para respirar e buscar uma maneira de auto-superação a fim de salvar a “carcaça” criativa do sistema.
Carlos Proença
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