Artigos e textos / Textos do Cineclube Tela Brasilis

 
Associação Cultural Tela Brasilis
Artigos e textos - Cineclube Tela Brasilis
 
(texto originalmente publicado no folder da Sessão de Novembro de 2008 do Cineclube Tela Brasilis)  
Que UFF é essa?
por Rafael de Luna
 
Como um cineclube formado desde o seu início por alunos e ex-alunos do curso de cinema da UFF, é natural que o Tela Brasilis dê sua participação nas comemorações dos seus 40 anos nesta sessão especial de novembro de 2008.
 
 
Mais além, em seu projeto de exibir, refletir e debater a História do Cinema Brasileiro em todas as vertentes e dimensões possíveis, sem menosprezar, por exemplo, o formato do curta-metragem – que eventualmente domina nossa programação ao representar a obra de um cineasta (como nas sessões que dedicamos a Olney São Paulo ou a Renato Tapajós), ou mais freqüentemente quando dialoga com o longa-metragem exibido –, o Tela Brasilis não apenas se engaja na celebração de uma efeméride, como insiste na visão da produção cinematográfica universitária como uma parcela importante e menosprezada de nossa filmografia.
 
A visão ultrapassada do “cinema” como equivalente apenas ao restrito universo dos longas-metragens ficcionais que circulam no circuito exibidor tradicional vem sendo superada por uma reflexão que abarca também a produção documentária e televisiva, por exemplo. Mas em que medida os filmes universitários – independentes de sua bitola, formato ou duração – são considerados no momento de uma reflexão a respeito da produção audiovisual brasileira? Essa produção poderia ser definida como um gênero, um estilo, um modo de produção, um movimento ou – perdoem-me o trocadinho – como uma “escola”? E dentro do panorama da produção audiovisual realizada em âmbito universitário, como refletir sobre os filmes realizados por um curso específico, como o da UFF?
 
Seria muita pretensão deste programa de filmes de menos de duas horas de duração e deste texto que nem chegará a duas laudas de extensão (fiquem tranqüilos!) pretender definir qual seria a “cara” da produção uffiana. Ou mesmo discutir se há, de fato, um estilo ou características próprias de um conjunto de filmes que compartilham, a priori, somente o espaço de produção.
 
De qualquer maneira, “espaço de produção” já é algum lugar de onde começar, podendo ser notada, por exemplo, a predominância da bitola 16 mm nas produções das primeiras três décadas do curso de cinema da UFF, com esparsas experiências em 35 mm, na maioria das vezes alimentadas por premiações, convênios ou circunstâncias especiais que possibilitam o gasto extra implicado pelo uso desta bitola. Desta sessão, por exemplo, o único filme em 35 mm é Que Cavação é Essa? (2008), premiado no Programa SAv/MINC – Forcine de apoio à produção de trabalhos de conclusão de cursos 2004. Este é também o curta uffiano mais recente da sessão, onde faz sua primeira exibição em solo carioca após sua estréia no Festival de Brasília. Trata-se de uma exceção, pois nos últimos anos a produção em digital vem coerentemente se sobrepondo ao uso da película, mesmo o 16 mm.  
Além do uso desta bitola semi-profissional ou mesmo “universitária”, e da óbvia restrição de orçamento dos curtas – que não se traduz necessariamente em precariedade de produção –, há outra característica essencial compartilhada por essa produção. Inerente ao fato de serem filmes realizados por universitários, a juventude de seus realizadores fica claramente expressa nas telas. Em sua maioria, são filmes feitos por jovens, para jovens e sobre jovens. Ao contrário da tendência (ou da fascinação) de outros cursos universitários em escalar atores consagrados para suas produções, na UFF os atores (e não-atores) geralmente são escalados no próprio universo IACSiano, colaborando para essa juventude ficar ainda mais clara na tela. Obviamente que são feitos filmes extremamente maduros na UFF, como o “clássico” Sol Alaranjado (2001) (embora baste ver o filme seguinte de Eduardo Valente, Castanho (2002), para se notar jovialidade uffiana ).  
Essa juventude é expressa pelas emoções rasgadas e assumidas, o que no caso do curso de cinema, se traduz sobretudo no amor pelo cinema. Não à toa a presença dos rostos menos jovens nas telas costuma coincidir com de ilustres professores que dão sua contribuição em diversos filmes, como Tunico Amâncio (em Nichteroy em foco, 1988), Antonio Serra (presente com sua voz na fabulosa narração de Bichos urbanos, 2002), José Marinho (premiado por sua atuação em Arábia, 2000), João Luiz Vieira (Conceição - Autor bom é autor morto, 2007) e Hernani Heffner (Que Cavação é Essa?). A cinefilia que singulariza a UFF dentre os cursos universitários cariocas (e brasileiros) vive plenamente em seus filmes, numa lógica aproximação com a nunca esquecida Nouvelle Vague, que notamos, por exemplo, no truffautiano Oi Laura, Oi Luis! (1998) Em muitos casos, essa cinefilia resulta numa grande linhagem de paródias, que não apenas subvertem, criticam ou reinventam os gêneros e estilos, mas o reafirmam com admiração. O leque de referências é amplo, e cobre o cinema de gênero hollywoodiano (Metro quadrado, 2002, Noir, 2003, Frio, 2006, Quem Vai Chorar Quando Eu Morrer? , 2006), o queer movie (Vestido dourado, 2000), o documentário clássico (Bichos urbanos), o cinema japonês (Sol Alaranjado), o cinema marginal (Geraldo Voador, 1994; Gosto que me enrosco, 2001); o cinema mudo (Uma estrela para Ioiô, 2004). Curiosamente, Que Cavação é Essa? amplia esse quadro de citações ao incluir ainda o filme natural, de atualidades, familiar ou, simplesmente, o filme de picaretagem brasileiro. Outro exemplo óbvio é a divisão interna por gêneros do único longa-metragem da história do curso, o divertidíssimo Conceição - Autor bom é autor morto. A direção compartilhada, outra marca inerente ao ambiente universitário em que as oportunidades de realização são poucas e os interessados em assumir a direção são muitos, também dever ser lembrada, sem que ela implique a ausência de traços pessoais e autorias, cujas diferenças geralmente são resolvidas (ou não) na mesa de bar, como mostra o mesmo Conceição... Mas a sátira sem pudores também está bastante presente, como mostram dois outros “clássicos”: o igualmente coletivo Nichteroy em foco – que aborda essa estranha cidade que acaba recebendo candidatos a cineastas de todo o Estado do Rio e do Brasil (aliás, este histórico registro fílmico deveria ser tombado e restaurado pela prefeitura de Niterói. Vamos lançar a campanha!) – e o antológico Palhaço Xupeta (1996). Além desses clássicos da comédia, vale citar a popular comédia clássica Boca a boca (2003) (baseada em conto do Veríssimo, autor curiosamente adaptado em vários curtas, mas em nenhum longa). Fora do universo do riso, da gozação ou da subversão, o sério-dramático também se revela democraticamente dividido entre o rigor narrativo (Cão Guia, 1999, Os donos da morte, 2001, Jonas e a baleia, 2006) e o lirismo poético (Meninas, 1997, Mesmas angústias, 2002, Berenice, 2005). O campo da experimentação não perde o seu lugar de destque, seja representado pelo saudável e claro prazer de experimentar, presente inclusive nos títulos de O princípio feminino do Sol (2002) e O latido do cachorro altera o percurso das nuvens (2005), ou atento à clara intenção autoral (Gostosa, 1990/1991, Por dentro de uma gota d’água, 2003).  
Por fim, qualquer visão do conjunto da produção da UFF é sempre limitada por seu caráter descontínuo, afinal, a passagem pela universidade, por mais próxima e intensa que seja, sempre se constituiu numa passagem temporária. Mesmo que essa fase possa ser mais curta para uns – a minha (1998-2002) está obviamente refletida nas minhas referências nesse texto – e muuuuuito longas para outros, invariavelmente traz marcas que seus ex-alunos carregam em suas vidas profissionais. Desse modo, pergunto: mesmo depois que sai da universidade, um ex-uffiano continua fazendo filmes uffianos? Será que menos uma escola ou um gênero, “os filmes da UFF” são uma sina?  
Rafael de Luna

 
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